O Mercado Invisível de Dados: Por que culpar apenas Vazamentos Esconde a Raiz do Problema?

O Mercado Invisível de Dados Por que culpar apenas Vazamentos Esconde a Raiz do Problema

Este conteúdo tem como fonte a publicação de Giba Smaniotto, do Jornal da Band, em 24.04.2026.
Acesse: https://www.band.com.br/noticias/jornal-da-band/ultimas/vazamento-de-dados-abastece-golpes-bancarios-e-quadrilhas-em-sao-paulo-202604242032

Análise Crítica: Enquanto o Jornal da Band foca na ação de quadrilhas na Zona Sul de SP, o Instituto SIGILO alerta que a comercialização legalizada de dados por birôs de crédito cria o ecossistema perfeito para o crime.

No último dia 24 de abril, o Jornal da Band trouxe à tona uma realidade alarmante: o desmantelamento de uma central de golpes na Avenida Guarapiranga, em São Paulo.

A reportagem detalhou como criminosos utilizavam listas precisas de clientes para aplicar o golpe do falso funcionário de banco. A conclusão da matéria foca no submundo: o vazamento de dados em sites estrangeiros e órgãos públicos seria a fonte exclusiva que abastece o crime.

No entanto, essa narrativa omite um fator estrutural. O mercado de dados no Brasil é legalizado, altamente lucrativo e operado por gigantes que caminham lado a lado com as instituições financeiras. Para o Instituto SIGILO, o problema não é apenas o dado que vaza na dark web, mas o dado que é vendido legalmente sem o controle devido.

O Papel dos Birôs de Crédito: O Crime sob a Capa da Legalidade

A crítica central recai sobre empresas como Serasa Experian e Boa Vista. Sob o pretexto de realizarem a proteção ao crédito, essas companhias detêm bases de dados monumentais que incluem histórico de compras, endereços, telefones e renda estimada.

O Instituto SIGILO tem sido uma voz ativa na denúncia de que essa infraestrutura legal é, muitas vezes, a fonte primária de onde os criminosos extraem informações através de empresas de fachada. “Não podemos falar apenas em vazamentos acidentais quando existe uma indústria que monetiza a privacidade do cidadão em larga escala”, argumenta o Presidente do Instituto SIGILO, Dr. Victor Hugo Pereira Gonçalves.

A Investigação do Instituto SIGILO: O Caminho do Dinheiro e dos Dados

O Instituto SIGILO tem desempenhado um papel fundamental ao questionar judicialmente e tecnicamente como esses dados circulam. Entre os pontos levantados pela organização que complementam (e confrontam) a reportagem da Band, destacam-se:

  1. A Facilitação por APIs: Birôs de crédito vendem acesso a bancos de dados via APIs para milhares de empresas. O Instituto SIGILO alerta que a falta de fiscalização sobre quem contrata esses serviços permite que quadrilhas criem empresas de fachada (como consultorias de fachada) para acessar dossiês completos de vítimas de forma “legal”.
  2. Responsabilidade Solidária: Enquanto a reportagem da Band foca na punição dos dez presos em São Paulo, o Instituto SIGILO defende que as grandes empresas detentoras dos dados devem ser responsabilizadas civilmente quando suas bases alimentam fraudes, conforme previsto na LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
  3. O Caso do Megavazamento: O Instituto SIGILO é protagonista em ações civis públicas que investigam grandes exposições de dados, como o caso de 2021 que envolveu mais de 220 milhões de CPFs. Para o Instituto SIGILO, casos como o da central de golpes da Zona Sul são apenas o estágio final de uma cadeia de negligência que começa nos grandes birôs.

Engenharia Social de Precisão: O Criminoso não precisa mais "adivinhar"

A reportagem da Band sugere medidas como ter, por exemplo, um celular reserva. No entanto, o Instituto SIGILO aponta que o problema é de engenharia social de precisão. O criminoso liga para a vítima sabendo exatamente o saldo bancário e o modelo do cartão porque teve acesso a um relatório de crédito completo. Essa informação não veio de um hacker amador, mas de um sistema de consulta profissional que é continuamente utilizado e não é minimamente regulamentado.

E, nesse ponto, há que se fazer uma referência direta à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que não atua diretamente na fiscalização dessas atividades.

Conclusão: Um Sistema que se Alimenta do Risco

Ao concluir que o crime reside apenas em quadrilhas organizadas, a reportagem do Jornal da Band ignora que essas quadrilhas são clientes, diretas e indiretas, de um sistema de tratamento de dados, que protege o crédito, mas não as pessoas.

Por outro lado, ao não se impor barreiras éticas ao lucro, vê-se o risco estrutural atingir somente as pessoas que são vítimas constantes de golpes, podendo até assumirem com suas próprias vidas as consequências de um ambiente sem fiscalização e repressão.

A segurança digital no Brasil não será resolvida apenas com prisões na periferia de São Paulo ou com a troca de senhas por parte do usuário. Como defende o Instituto SIGILO, é necessária uma fiscalização rigorosa sobre os birôs de crédito e uma mudança na interpretação da lei: se o dado é a arma do crime, quem vendeu a arma — mesmo com nota fiscal — precisa responder pelo disparo.

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